Por que o politicamente correto pode levar Bolsonaro ao poder

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O Evangelho Segundo Jesus Cristo é um dos grandes romances de José Saramago, mais alegórico que A Caverna e ainda mais ambicioso que o Ensaio Sobre a Cegueira. Como o próprio título indica, traça uma biografia alternativa de Jesus, tratando-o como ser humano, não como entidade divina, e constrói uma crítica aos efeitos do Cristianismo no ocidente.

Especialistas e leitores concordam que o ponto máximo da obra é o Diálogo da Barca, entre as páginas 363 e 400 (na edição brasileira da Companhia das Letras), onde Deus, Jesus e o Diabo têm uma conversa que é a própria razão de ser do livro.

Depois que Deus determina o martírio do Filho e prevê um futuro de guerras em nome da Cruz, o Diabo faz uma proposta inusitada ao Criador: ajoelha-se e pede para voltar a ser Lúcifer, o anjo predileto, pois assim o Mal deixaria de existir e, graças ao perdão que Deus concederia “tão facilmente à esquerda e à direita”, o Bem governaria por toda a terra e para todo o sempre.

Mais do que surpreendente, a resposta de Deus é de uma clareza didática e esclarecedora:

— Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora (…) porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro.

Mas o que o Bolsonaro tem a ver com o Diálogo da Barca?

Simples: ele está sentado numa das extremidades da embarcação.

Se representa o Deus calculista ou o Diabo matreiro, deixo para a avaliação personalizada de fãs e detratores, mas uma coisa é certa: Bolsonaro só surgiu como celebridade — ou mito — por causa do fortalecimento dos grupos a que faz oposição.

É por isso que o pré-candidato à presidência deve muito a figuras como Jean Wyllis e Maria do Rosário. Sem o bom-mocismo hipócrita do ex-brother e sem os piripaques cômicos da “defensora dos estupradores”, Bolsonaro continuaria sendo um deputado esquecido numa cadeira à meia-luz do Congresso Nacional.

Não deixa de ser curioso que esse ambiente de polarização era impensável há poucos anos. Só depois dos tiques autoritários do politicamente correto é que os “incorretos” sentiram a necessidade de esculhambar as redes sociais. Quem compõe esse time de “incorretos”? Muita gente, mas, basicamente, pessoas que até então estavam distantes da atividade política.

Parece que uma nova lógica de sociedade está sendo fundada por uma minoria pronta a condenar e até mesmo criminalizar a opinião da maioria que mantém padrões de comportamento hoje considerados retrógrados e ultrapassados, quando não preconceituosos e — os genéricos são um show à parte — neonazistas!

A imensa maioria dos brasileiros, especialmente fora dos grandes centros, ainda considera a possibilidade de constituir ou manter uma família em moldes convencionais. Quando perguntam se o governo virou protetor de bandidos ou se a Globo agora é um canal gay, estão apenas expressando a perplexidade diante de mudanças que vieram depressa demais.


Poucos prestaram atenção nessa maioria que começa a criar consciência de classe, não social, mas étnica e sexual, algo inteiramente novo no Brasil. Se faltava uma voz para representar essa “classe”, faz tempo que Bolsonaro se apresentou como voluntário.

Coisa parecida ocorreu nos Estados Unidos, onde um canastrão como Trump jamais poderia chegar à Casa Branca. Talvez as coisas sejam mais complexas no Brasil, que passou por dois impeachments em menos de 25 anos, mas a verdade é que a “trumpificação” da política é um dado concreto.

Isso significa que o politicamente correto teve efeitos reversos e facilitou a popularização de Bolsonaro, quadro que pode se intensificar nos próximos meses.

Apesar de suas limitações intelectuais — algo que em hipótese alguma impediu alguém de ser presidente do Brasil —, Bolsonaro não é bobo. Já incorporou em seus discursos as palavras de ordem contrárias a esse fantasma, também genérico, que é o politicamente correto.

Analistas garantem que ele se enforcará com a própria corda, é só começar a campanha eleitoral, mas essa é uma fase que ainda está por vir.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo é um dos grandes romances de José Saramago, mais alegórico que A Caverna e ainda mais ambicioso que o Ensaio Sobre a Cegueira. Como o próprio título indica, traça uma biografia alternativa de Jesus, tratando-o como ser humano, não como entidade divina, e constrói uma crítica aos efeitos do Cristianismo no ocidente.

Especialistas e leitores concordam que o ponto máximo da obra é o Diálogo da Barca, entre as páginas 363 e 400 (na edição brasileira da Companhia das Letras), onde Deus, Jesus e o Diabo têm uma conversa que é a própria razão de ser do livro.

Depois que Deus determina o martírio do Filho e prevê um futuro de guerras em nome da Cruz, o Diabo faz uma proposta inusitada ao Criador: ajoelha-se e pede para voltar a ser Lúcifer, o anjo predileto, pois assim o Mal deixaria de existir e, graças ao perdão que Deus concederia “tão facilmente à esquerda e à direita”, o Bem governaria por toda a terra e para todo o sempre.

Mais do que surpreendente, a resposta de Deus é de uma clareza didática e esclarecedora:

— Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora (…) porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro.

Mas o que o Bolsonaro tem a ver com o Diálogo da Barca?

Simples: ele está sentado numa das extremidades da embarcação.

Se representa o Deus calculista ou o Diabo matreiro, deixo para a avaliação personalizada de fãs e detratores, mas uma coisa é certa: Bolsonaro só surgiu como celebridade — ou mito — por causa do fortalecimento dos grupos a que faz oposição.

É por isso que o pré-candidato à presidência deve muito a figuras como Jean Wyllis e Maria do Rosário. Sem o bom-mocismo hipócrita do ex-brother e sem os piripaques cômicos da “defensora dos estupradores”, Bolsonaro continuaria sendo um deputado esquecido numa cadeira à meia-luz do Congresso Nacional.


Não deixa de ser curioso que esse ambiente de polarização era impensável há poucos anos. Só depois dos tiques autoritários do politicamente correto é que os “incorretos” sentiram a necessidade de esculhambar as redes sociais. Quem compõe esse time de “incorretos”? Muita gente, mas, basicamente, pessoas que até então estavam distantes da atividade política.


Parece que uma nova lógica de sociedade está sendo fundada por uma minoria pronta a condenar e até mesmo criminalizar a opinião da maioria que mantém padrões de comportamento hoje considerados retrógrados e ultrapassados, quando não preconceituosos e — os genéricos são um show à parte — neonazistas!

A imensa maioria dos brasileiros, especialmente fora dos grandes centros, ainda considera a possibilidade de constituir ou manter uma família em moldes convencionais. Quando perguntam se o governo virou protetor de bandidos ou se a Globo agora é um canal gay, estão apenas expressando a perplexidade diante de mudanças que vieram depressa demais.

Poucos prestaram atenção nessa maioria que começa a criar consciência de classe, não social, mas étnica e sexual, algo inteiramente novo no Brasil. Se faltava uma voz para representar essa “classe”, faz tempo que Bolsonaro se apresentou como voluntário.

Coisa parecida ocorreu nos Estados Unidos, onde um canastrão como Trump jamais poderia chegar à Casa Branca. Talvez as coisas sejam mais complexas no Brasil, que passou por dois impeachments em menos de 25 anos, mas a verdade é que a “trumpificação” da política é um dado concreto.

Isso significa que o politicamente correto teve efeitos reversos e facilitou a popularização de Bolsonaro, quadro que pode se intensificar nos próximos meses.

Apesar de suas limitações intelectuais — algo que em hipótese alguma impediu alguém de ser presidente do Brasil —, Bolsonaro não é bobo. Já incorporou em seus discursos as palavras de ordem contrárias a esse fantasma, também genérico, que é o politicamente correto.

Analistas garantem que ele se enforcará com a própria corda, é só começar a campanha eleitoral, mas essa é uma fase que ainda está por vir.

Por enquanto basta saber que estamos todos na Barca, à deriva.

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